Jorge Henrique Zaninetti

O INÚTIL APEGO AOS VELHOS RÓTULOS POLÍTICO-IDEOLÓGICOS (*)

Por dothCom Consultoria Digital 25 SET 2018 - 17h58min

 

Este velho espectro de posições políticas da Assembleia Legislativa Francesa de 1791, que antecedeu a Revolução Francesa (1798), definiu-se, em síntese, como um sistema de classificação de ideologias que vai da igualdade da esquerda até a hierarquia social à direita, no qual os extremos são invariavelmente tomados como opostos.
À época que antecedeu a Revolução, eram basicamente os partidários do rei (“Ancien Régime”), à direita do presidente da assembleia e os partidários da revolução, à sua esquerda ("defensores da constituição"), tendo ainda os chamados "moderados" reunidos no centro.
Desde então, na prática, a direita passou cada vez mais a congregar o setor partidário associado aos interesses das classes altas ou dominantes (defendendo suas prerrogativas, privilégios e poderes arraigados), a esquerda a expressar os anseios das classes econômicas ou sociais mais baixas (atacando, portanto, tais prerrogativas e privilégios da aristocracia) e o centro das classes médias (postulando igualdade de vantagem ou de oportunidades e “proteções” em face da aristocracia).
Além disso, esta polarização tem como pano de fundo, à esquerda, os sentimentos dos liberais - liberdade, igualdade, fraternidade -, e à direita, os conceitos dos conservadores - autoridade, hierarquia, ordem, tradição.
Esta classificação ideológica apresentou diferentes nuanças ao longo do tempo, nos diversos países ocidentais, sobretudo de acordo as clivagens sociais e políticas existentes em cada um deles e com o seu nível de desenvolvimento econômico, contrapondo ou relativizando conceitos tais como o do direito à propriedade privada (exacerbadamente defendido pela direita como um conceito absoluto) e o da justiça social (dogmaticamente sustentada de forma radical pela esquerda, como sendo a única forma de se promover o bem-estar humano geral).
Entretanto, agora no Século XXI, esta polarização direita-esquerda se mostra muito mais como uma tática de “Propaganda”, nomenclatura esta (“Propaganda”) aqui colocada para designar a expressão corrente adotada pela língua inglesa cujo significado vem a ser o de “informações, especialmente de natureza tendenciosa ou enganosa, usadas para promover ou divulgar uma causa política ou ponto de vista particular”.
Em verdade, as designações “direita” e “esquerda” não mais podem ser vistas como algo realmente significativo no mundo moderno, sobretudo quando usados de forma ostensiva e impropria, não só na dimensão política, como também nas dimensões econômicas, sociais, educacionais, familiares, religiosas e artísticas, bem como de raça, gênero e nacionalidade.
O mundo cada vez mais globalizado se preocupa em classificar os países não mais como de esquerda ou de direita, mas, sim, como “abertos” ou “fechados”. Isto porque, tantos as questões sociais de cada país (internas) quanto as relacionadas ao globalismo (externas) tornaram-se muito mais relevantes do que as visões maniqueístas convencionais de esquerda vs. direita e seus embates ideológicos.
Cada cidadão de cada país, ou seja, seus potenciais eleitores, revelam, em síntese uma polarização entre o que seria, por assim dizer: uma mentalidade “aberta”, cujas tendências pessoais revelam um caráter socialmente liberal, multicultural e favorável à globalização; e uma mentalidade “fechada”, ou seja, culturalmente conservadora, contrária à imigração e à globalização, tradicionalista, nacionalista e amplamente favorável ao protecionismo de mercado.
Esta é a verdadeira polarização dos dias atuais. Uma polarização de caráter muito mais abrangente que a ideológica, vez que abarca (não de forma periférica, mas de forma central) todas as dimensões antagônicas do mundo ocidental do Século XXI, ou seja, políticas, econômicas, sociais, educacionais, familiares, religiosas, culturais e artísticas etc., e também as visões individuais inatas de mundo (de cada pessoa), suas ideais preconcebidas (preconceitos de raça, gênero, condição social, credo e nacionalidade) e seus valores intrínsecos.
Este caráter extremamente abrangente da “Nova Polarização” revela, portanto, um mundo atual infelizmente cada vez mais polarizado onde a convivência com as diferenças (sobretudo as políticas) tem se tornado cada vez mais difícil para as pessoas comuns.
Cabe aos amantes do pensamento livre e das ideias, criar mecanismos para melhorar o exercício da arte da argumentação, para que ela não seja diariamente substituída nas escolas (debate acadêmico), nas redes sociais, nos clubes, nos núcleos familiares e no debate público em geral, por: posturas majoritárias intolerantes e ataques “ad hominem”; corporativismo, “tribalismo” e fanatismo; demagogia, apelos emocionais e uso de “clichês”; “cultura do medo”, intimidação,  “demonização” de opositores e resistência sistemática ao diálogo; além de outros tipos de retórica um tanto quanto em alta no momento.
Cabe também a eles (amantes do pensamento livre e das ideias), criar “pontes” entre “nós e eles”, interligando e amalgamando coletividades, dando corda nos “relógios” parados no tempo, em busca de uma nova consciência e de uma nova verdade tão necessária para que todos possam ter individualmente e coletivamente o direito: à “busca da felicidade”; à liberdade de expressão (sem, no entanto, menosprezar outros pontos de vista); e à conquista de seu espaço neste mundo de 7,6 bilhões de habitantes.
Cabe, por fim, a todos, portanto, resistir à tentação de olhar o novo mundo e o novo século pela lente da ideologia pessoal, partindo-se apenas e tão somente: de suas identificações, rótulos e apegos; dos velhos sistemas de pensamento com os quais se identificaram até hoje, e que as mantém ignorantes da realidade e das verdades universais do mundo atual. Revendo, com humildade e sem orgulho, no contexto da verdade histórica atual, suas “certezas ideológicas” e, sobretudo, suas ideais pré-concebidas no sentido de que uma única determinada ideologia pode ser capaz de oferecer todas as respostas relevantes, muitas vezes mesmo sem conhecer todas as realidades existentes em um país e suas mais questões relevantes.

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