Raquel Anderson

Aquidauana, 128 anos!

Por Raquel Anderson 15 AGO 2020 - 05h12min


Sim, nós temos orgulho!

Porque os nossos olhos brilham quando identificamos um aquidauanense, ainda que a gente não admita.

Parafraseando Drummond: “Aquidauana (pode ser) só um retrato na parede, mas como dói”!

Sim, a gente tem um jeito, um orgulho de contar que tínhamos um piloto que passava com o seu teco-teco de baixo da ponte velha, que fulano e beltrano pulavam de cima da ponte, que o toro preto brigava com quem  estacionasse na vaga do seu carro imaginário, que o Ma ma Mariano, era o gaguinho mais bonzinho da cidade, que a gente levou o maior susto quando reencontramos com o Mané pipoqueiro, depois dos boatos que ele havia morrido, que a cigana Felícia, do bairro alto, podia nos pegar para fazer sabão, que o homem da capa preta ia atravessar o trilho no meio da noite, que o guarda “cabeça de pudim” ia nos perseguir, que na segunda-feira, na escola, saberíamos detalhes das intimidades alheias, quem beijou na boca no escurinho do cinema, quem traiu, quem separou, quem viajou, quem fugiu, quem dançou de rosto colado, apertadinho, experimentando “proeminências”, quem deu cavalinho de pau, quem driblou os infalíveis fofoqueiros de plantão que iriam nos entregar, nos censurar pelas nossas adoráveis loucuras.

Sim, a gente tem orgulho dos tempos do Feminino, dos inesquecíveis bailes e carnavais, das nossas ex normalistas, a gente tem histórias, a gente aumenta o número de participantes da Pantaneta,50, 60 mil pessoas.

A gente torce pelo Azulão, a gente tem um sorriso doce quando a gente se vê, mesmo quando a gente diz não gostar de alguém, no fundo, lá no chão do rio, bem no fundo, no nosso “presal”, a gente quer tudo e todo o bem da nossa cidade, porque aquidauanense é assim, no fundo, sente orgulho.

Sim, a gente tem um jeito de saber de tudo, de conhecer detalhes da vida alheia, de termos a calçada cheia de gente. Sim, a gente sente, pra sempre, muito orgulho, mesmo que a gente negue, renegue.

A gente tem intimidade com os Terenas, a gente sabe que a inocência e a presença deles é parte de nós, eles são a nossa gente.

A gente adora ver Aquidauana na televisão, a gente vibra quando vê um aquidauanense ter êxito, a gente sempre terá rádio pião, porque não há tecnologia que retraia o nosso jeito, de nos preocuparmos, de querermos saber das notícias pessoalmente, numa roda de tereré, no meio de um café, no bar, no meio da rua, fora ou dentro do rio.

A gente se preocupa quando o carro da polícia passa numa velocidade por nós considerada acima do normal, a gente quer saber o que está acontecendo além do nosso quintal.

A gente gosta das coisas simplezinhas, a gente gosta dessas referências, que tanto nos humanizam e nos identificam, para muitos de nós, esse nosso jeito é maior e mais encantador do que a história oficial, é o legado do dia a dia, o jeito do nosso povo, é o nosso jeito, o nosso cheiro de gente, de mato, de bicho, de índio, de pantaneiros.

A gente tem a melhor carne do mundo, o melhor caldo de piranha, o peixe mais saboroso, a gente tem o sol mais quente e mais bonito, o céu azul de Aquidauana é o teto mais acolhedor, a gente enfrenta o calor, mosquito, enchente, a gente sente orgulho da gente e, mesmo nesses tempos, nebulosos, de dores indizíveis, perdas e descasos, a gente perdoa, sofre, respira fundo porque a gente se ama, somos o adorável povo de Aquidauana.

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