Memórias Pantaneiras

A Corte

Por Rhobson ADM 01 FEV 2022 - 11h34min

Na década de 40, do século passado, os namoros começavam de longe, talvez em ousadia de uma piscadela, um galanteio sem atrevimento. Era uma corte que se iniciava, um rito.

Nessa época, chamava “flirt”, palavra importada, para designar aquela mirada com admiração e interesse. Daí, a aproximação tímida, algumas palavras entre formais e atrevidas, rostos afogueados de um e da outra cortejada. Era um ritual de romance prenunciado, suspiroso e ansioso, na pré-conquista.

Escola Parochial ou Colégio das Freiras

O local da moda era o murinho do “colégio das freiras” – a Escola Parochial.

Enquanto as mães iam para a reza, bem nos bancos da frente, próximas ao altar, as filhas, num sapoitê, escapuliam dos bancos de trás, e corriam para o murinho, do outro lado. Isso  se dava toda quarta-feira e nas primeiras sextas-feiras do mês.

Eram muitas as moças empoleiradas, como passarinhos, sentadas, com recato, nesse murinho que até hoje existe. Ali, aguardavam, ansiosas, o início de um ritual, que hoje seria a “paquera”. Quando esta fase evoluía, os moços já se aproximavam e, extrema ousadia, sentavam ao lado e pegavam nos dedinhos minguinhos, no prenúncio de um interesse que, muitas vezes evoluía para namoro firme. Já nesse estágio, elas se reclusavam, aguardando visitas no portão de casa. Então,

O namoro firme já denotava algum compromisso. Tanto que, quando o namorado, ou namorada tinha que viajar, por qualquer motivo, para qualquer lugar, ficava-se “guardando ausência”.

Era quando se podia até sonhar com possíveis compromissos de futuro juntos e formação de família. Com certeza, muitas aqui, foram assim constituídas.

No final da década de 40, no pós-guerra, tudo mudou muito rapidamente. Os costumes avançaram, modelos de comportamento evoluiram num piscar de olhos e a modernidade chegou e impôs um novo olhar para a vida e novos paradigmas nas relações sociais, aqui analisadas no âmbito das amorosas.

Central Pax_03

Tudo tendia para o diferente. A antiga timidez, que fazia corar o rosto e afoguear o peito, passou a dar lugar a uma desconhecida ousadia, com jovens em novas roupagens modernas, mocinhas com “slacks” e tomara que caia, maiôs mais reveladores. Saiam de si mesmos, de seus antigos casulos para, em bandos (chamados “turmas”), já no jardim, fazer outro tipo de cortejamento, podemos dizer, até mais coletivo.

O jardim, como era chamado o passeio público, para tristeza de nossa história e perda de parte de nossa memória, foi demolido. Contrariando o nome, não era florido. Pouquíssimas árvores e raras flores, focado em duas imensas palmeiras-leque, que a tudo assistiam, pelos anos. No que se pode chamar de projeto de urbanização, tinha, ao centro, uma área meio arredondada, calçada. Ali, as crianças brincavam de roda e de pegador, com repertório de um cancioneiro infantil memorável. Enquanto isso, seus pais, faziam a sua domingueira tomando sorvete “spumoni”, no rádio bar, imbatível novidade trazida pelo sr. João Vaz de Campos. Mais tarde, o proprietário foi o Zé Capiau, como era conhecido. Ou, então, o famoso cafezinho da hora, do Café Caipira, cujo ultimo proprietário foi o sr. Adriano de Carvalho e dona Aidina. Por volta de 1942, seu Constantino, grego, montou o Bar Central, onde é hoje a Gazin, passou a ser o point, particularmente para quem não tinha a filharada brincando de roda no jardim.

Voltando á formatação do antigo jardim. Em volta, desse eixo central, alguns bancos de granilite, ofertados pelos comerciantes da época que tinham os nomes das casas de comércio gravadas nos encostos, eram pausas para os vários volteios das crianças e das moças e rapazes que caminhavam, aos pares, ou em grupos pequenos e com espaçamento coreográfico no passeio que circundava fora de alguns canteiros gramados ou, então, com pouquíssimas árvores. Era um quase bailado caminhado, com marcações certas e tradicionais. Os moços caminhavam em sentido contrário ao das moças por horas a fio, às vezes escutando os famosos recadinhos e mensagens irradiados pelo alto falante do rádio bar. Muitos destes, eram de forma indireta, fulano, para a moça vestida de azul ou saia rendada, sempre elogiosos em veladas tentativas de conquistas. Era o chamado correio elegante.

Essa coreografia, era chamada o “footing”, que ia ritmadamente marcando os compassos de uma alegoria de dança não dançada, revelando interesse nas conquistas. Era o surgimento de um novo imaginário do romance.

Assim nasceram muitos flertes, que viravam namoros, chegando a noivados e casamentos das muitas famílias de então.

                Yara Penteado  (Antropóloga)

Em tempo: esses relatos, nomes e datas, não têm a pretensão de um registro no rigor da história. são do tipo memorialista, baseados nas recordações de minha mãe, Carmen Geleilate e minhas pessoais, a isso pode se dever alguns lapsos na narrativa. Por exemplo, deixamos de registrar a famosa turma do cano, do mesmo jardim, que poderá ser objeto de registros futuros. Este artigo se volta mais para o romenceiro aquidauanense, se assim podemos chamar.              

            

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