Era domingo

Por Raquel Anderson 10 AGO 2020 - 10h28min
Foto: Arquivo Pessoal

A gente respira poeira faz tempo, uma poeirinha fina, do calorão pantaneiro.

O quebra vento, com uma trava de puro inox, amenizava um pouco o calor, permitindo um direcionamento angular, mais forte, da brisa quente.

O banco, revestido em gominhos, de courvin, feito mata-borrão às avessas, permitia o nosso bailado, sentados, escorregando no suor das nossas pernas e no equilíbrio necessário com os solavancos das estradas de terra…

Não sabíamos o que era desconforto, muito menos conforto, a gente se entregava à vida do jeito que a vida era, com a missão de viver bem…

A gente se ajudava mais…

O cheiro do mato, a sinfonia dos pássaros, o barulho d’água, o carimbo dos rastros dos bichos na areia, a velocidade reduzida, a sensação de frescor…a proximidade da grota…

No meio das catorze horas de viagem, era chegada a hora da matula.

A mãe abria a trouxa, feita com a toalha de mesa alvejada, as delicadezas que antecediam a matuleada, já enchiam os olhos e o paladar de prazer…a lata de arroz, do jogo de mantimentos, de alumínio, parecia enorme, cheia, até a tampa, de farinha com galinha frita mergulhada no meio dessa farinhada toda…a gente se lambuzava, sem modos, sem finesses, sem preocupações, sem padrões e sem censuras…segurar uma coxa de galinha mergulhada na farinha, rodando, como uma espiga de milho, é gênia!

O pai achava logo uma sombra pra armar a rede, esticar as pernas e a gente corria pra dentro d’água, das águas frias e salobras de Bonito, quando Bonito era ainda mais BONITO e era o nosso paradeiro, rumo ao Pantanal do Campo dos Índios.

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Os cachorros onceiros desciam da “picarpe” Pickup Willys, enlouquecidos pra correr, comer…

Naquele dia, o Cherry não voltou, o pai chorou, dói muito quando a gente vê o pai virar um menino…

O pai resolveu ficar ali à espera do seu amor Cherry!

O pai assoviava alto e estalava os dedos chamando-o, como se ele estivesse por perto…nada…

A mãe rezou, acendeu vela, fez promessa pro Cherry voltar… ele era lindo, robusto e fazia parte da gente.

Ficamos cinco dias acampados, no meio do mato, o pai fez um rancho, um fogão no chão, caçou, pescou, chorou, ficou rouco de tanto chamar o seu Cherry.

Agora, a partir desse momento da narrativa, o pai é o Oswaldão, forte, destemido, corajoso, sagaz, astuto, embrenhado no mato…e eis que, no entardecer do quinto dia, era domingo, ali, tristes, desconsolados, o Oswaldão saiu do meio do mato com o Cherry no seu colo, machucado, fraco, com fome e sede…

Cherry aloitou com uma onça, sua habilidade principal…ela o machucou, ele resistiu… Oswaldão o resgatou e nos ensinou, lindamente, a nunca desistirmos de lutarmos, a termos persistência, muito jeito, carinho, esperanças e muita paciência que é o que a vida pede.

Saudades de tudo que um dia fomos nós!

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