Igreja Matriz: História e Ficção

Por Da Redação / Antônio Graça Neto 28 SET 2020 - 09h30min

Os visitantes que se aproximam de nossa cidade vislumbram, desde os altos da vizinha Anastácio, um templo majestoso e de presença marcante e absorvente. Duas torres, como agulhas, ficam o céu. Um prédio de coloração clara parece guardar a cidade. Eis ai, em breves palavras, a igreja Matriz de Nossa Senhora da Imaculada Conceição.

Conforme os registros da Congregação Redentorista, a Igreja Matriz teria sido consagrada nos idos dos anos 30, já após a chegada dos primeiros missionários americanos em nossa cidade, os padres Francis Mohr e Alphonse Hild, aqui aportados em 1930.

Construída e consagrada, a Matriz acabou por firmar-se como referência monumental da cidade, como elemento distintivo da identidade aquidauanense e até como palco de conflitos entre as mentalidades tradicionais e as novas, oriundas de processos históricos mais recentes.

Relativamente ao seu perfil arquitetônico, não podemos dizer que a Igreja Matriz seja uma igreja “gótica”, uma vez que não foi construída nos tempos medievais. Melhor seria afirmar, como o faz o Prof. Paulo Correia de Oliveira, que a nossa Igreja revela uma forte “inspiração gótica”, uma vez que reproduz, com rara competência e bom-gosto, algumas ideias fundamentais desde estilo arquitetônico.

Na linguagem mais moderna dos estudos culturais, a “Kulturkritik”, pode-se afirmar que a Igreja Matriz das “citações” aos trabalhos da arquitetura gótica. Ela se “intertextualiza” no universo dos formatos medievais de construção e depois “contextualiza”, estes mesmo formatos, no cenário aquidauanense, pantaneiro.

A primeira “citação” é encontrada na própria forma da Igreja. Os que já contemplaram de cima – sobrevoando-a de avião, por exemplo – puderam notar que a Igreja Matriz tem formato de cruz. O tronco da cruz recebe, tecnicamente, a denominação de “nave”: corresponde, no interior da Igreja aquele espaço interno que começa na porta principal e vai até o altar principal, sendo ali, na “nave, o lugar onde acontecem as celebrações litúrgicas. Os braços da cruz formam o “transepto”, que era construído para abrigar os altares laterais, os quais serviam, nos tempos antigos, ao culto dos santos (principalmente o da Virgem Maria), às devoções particulares e a eventuais celebrações litúrgicas. Atualmente, o “transepto” da Matriz abriga, no lado esquerdo de quem entra, um altar lateral dedicado à N.Sª do Perpétuo Socorro, centralizado não numa imagem, o que é interessante observar, e sim num ícone bizantino da santa. O lado direito do “transepto” é atualmente ocupado por bancos, onde se senta a equipe musical que anima as missas de domingo.

A segunda “citação”, iremos encontra-la nas “ogivas cruzadas”, que são aquelas colunas de madeira que cruzam o teto da igreja parecendo que estão a sustentar a abóboda. É útil observar que as ogivas, nas catedrais góticas, utilizaram a pedra como material. Isto fazia sentido pela dimensão daquelas igrejas, e pelo papel das ogivas na própria sustentação do edifício, que era geralmente de altura excessiva.

Esta ideia de verticalidade, esta inclinação às grandes alturas e às formas pontiagudas, também se apresentam em nossa Matriz. As duas torres ainda estão no plano das construções mais altas de nossa cidade, sem previsão de que outro lhe venha fazer sombra num futuro próximo.

Mais abaixo das torres encontram-se as três portas frontais da igreja, fazendo mais uma clara citação aos traços do gótico: o “arco quebrado”. Dizemos que o arco é “quebrado” por não ser totalmente curvilíneo. No seu ponto mais superior, ele assume discretamente o formato de ogiva.

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Além das portas, o “arco quebrado” também se apresenta nos vitrais da matriz, os quais dão acabamento a este refinado trabalho de reprodução do gótico. Os vitrais redondos, com pétalas coloridas, recebem o nome de “rosáceas”, servindo, juntamente com os outros, para filtrar e colorizar a luz solar, criando uma atmosfera diferenciada e mística no interior do templo.

Do exposto, conclui-se que a Igreja Matriz conseguiu esquematizar e resumir os impulsos fundamentais da arte gótica. Esta arte visava, com suas igrejas verticalizadas e monumentais, fazer com que os homens se sentissem minúsculos diante da majestade e da onipotência de Deus. Esta conceitualidade do gótico se faz presente na Matriz, acima das formas e através delas.

É extremamente interessante que Aquidauana tenha criado a sua primeira grande obra de arte com base nos modelos medievais. Foram desprezados os ideais da harmonia e proporcionalidade do clássico, as dobras do barroco e as vanguardices do moderno. Será que isto seria símbolo de uma mentalidade medievalizante, de uma concepção vertical do mundo e da sociedade? É difícil comprovar. Mas se nós, aquidauanenses, formos de fato medievais – preservemos as coisas boas da Idade Média: a sua fé intensa e a sua devoção monástica ao saber. As suas universidades. As suas igrejas.

Queimemos numa grande fogueira as coisas ruins. Os feudalismos e as políticas opressivas. Evitemos também as cruzadas inúteis. A busca paranóica e fanática de uma graal que parece santo, mas não é. Afinal santa mesmoo só a nossa Igreja. Só ela merecerá tamanho sacrifício.

Uma antiga estória relata que a Ata de fundação de Aquidauana foi depositada na pedra fundamental da Matriz. Mais um motivo para fazer tombamento histórica desta Igreja. Ela sozinha faz Aquidauana ter valido a pena.

Fonte:

Por: Antônio Graça Neto

Fonte: Revista Aquidauana Cidade Centenária!

(15 de agosto 1892 – 1992)

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